O hipogonadismo masculino — deficiência de testosterona clinicamente significativa — é mais prevalente do que se supõe: afeta aproximadamente 2-4% de todos os homens adultos segundo dados da Endocrine Society, e a prevalência aumenta com a idade (estimada em 10-25% acima dos 70 anos). Apesar da prevalência, permanece subdiagnosticado porque seus sintomas são inespecíficos e comuns a outras condições.
O que é testosterona e por que ela importa
A testosterona é o principal androgênio masculino, produzida em ~95% pelos testículos (células de Leydig) e ~5% pelas glândulas adrenais. É responsável por: desenvolvimento dos caracteres sexuais primários e secundários, espermatogênese, libido, massa muscular, densidade óssea, eritropoiese (produção de glóbulos vermelhos) e bem-estar psicológico.
A produção é regulada pelo eixo hipotálamo-hipófise-gonadal: o hipotálamo secreta GnRH, que estimula a hipófise a secretar LH e FSH; o LH estimula as células de Leydig a produzir testosterona.
Tipos de hipogonadismo
| Tipo | Origem | LH/FSH | Causas comuns |
|---|---|---|---|
| Hipogonadismo primário (hipergonadotrófico) | Testículos | Elevados | Síndrome de Klinefelter, orquite, trauma, torção, quimioterapia |
| Hipogonadismo secundário (hipogonadotrófico) | Hipófise / hipotálamo | Baixos ou normais | Obesidade, hiperprolactinemia, tumor hipofisário, anabolizantes, opioide crônico |
| Misto / tardio | Ambos | Variável | Envelhecimento (“andropausa”) |
“Andropausa”: uma palavra inadequada
O declínio da testosterona com o envelhecimento (DAEM — declínio androgênico do envelhecimento masculino) é gradual — diferente da menopausa feminina, que é abrupta e universal. Apenas uma minoria dos homens idosos desenvolve hipogonadismo sintomático que justifique reposição. O termo “andropausa” é clinicamente impreciso.
Sintomas
Nenhum sintoma de hipogonadismo é específico — todos podem ter outras causas. Os principais:
Sexuais e urológicos:
- Redução do desejo sexual (libido)
- Disfunção erétil (especialmente perda de ereções matinais espontâneas)
- Redução do volume de ejaculação
- Infertilidade
Composição corporal e metabolismo:
- Perda de massa muscular e força
- Aumento de gordura corporal (especialmente visceral)
- Redução de pelos corporais e barba
Sistêmicos:
- Fadiga persistente e falta de energia
- Humor deprimido, irritabilidade
- Dificuldade de concentração e memória
- Ondas de calor (menos comum em homens)
- Osteoporose e risco aumentado de fratura
Escalas clínicas: o questionário ADAM (Androgen Deficiency in Aging Males) e a escala de sintomas da AMS são usados como triagem — pontuação positiva não confirma diagnóstico, mas indica avaliação laboratorial.
Diagnóstico: quando e como coletar
A testosterona total deve ser coletada pela manhã (entre 7h e 10h), em jejum — o pico circadiano é neste período e pode ser 25-35% maior do que à tarde. Dois valores baixos em dias diferentes confirmam o diagnóstico.
Valores de referência (Endocrine Society, 2018):
- Normal: > 350 ng/dL (12,1 nmol/L)
- Zona cinzenta: 200-350 ng/dL — decisão individualizada
- Hipogonadismo: < 200 ng/dL (6,9 nmol/L) — indicação mais clara de reposição
Em casos com testosterona total limítrofe, calcule a testosterona livre ou biodisponível (considerando SHBG elevada — comum em idosos, obesos e pacientes com cirrose).
Exames adicionais obrigatórios:
- LH, FSH (distinguir hipogonadismo primário de secundário)
- Prolactina (descartar hiperprolactinemia)
- Hemograma (policitemia é efeito colateral da reposição)
- PSA (rastreamento de câncer de próstata — obrigatório antes da reposição)
- Hematócrito
Tratamento
Quando indicar reposição
A reposição de testosterona é indicada quando há: (1) dois valores de testosterona total baixos + (2) sintomas compatíveis + (3) ausência de contraindicações. Não se trata apenas de um número no exame.
Contraindicações absolutas:
- Câncer de próstata ou mama não tratado
- Hematócrito > 54%
- Infarto ou AVC recente (< 6 meses)
- Desejo de fertilidade futura
Formas de reposição
| Formulação | Frequência | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|---|
| Injeção IM (cipionato, undecanoato) | 7-14 dias / 3 meses | Custo menor, eficácia alta | Picos e vales de T |
| Gel transdérmico | Diário | Níveis estáveis | Risco de transferência para parceiros |
| Adesivo | Diário | Cômodo | Dermatite local |
| Cápsulas (undecanoato oral) | 2-3x/dia | Via oral | Menor eficácia |
Monitoramento durante a reposição
- PSA e toque retal: após 3-6 meses e anualmente
- Hematócrito: após 3-6 meses (suspender se > 54%)
- Testosterona total: ajuste de dose para manter 400-700 ng/dL
- Lipidograma, função hepática
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de testosterona baixa?
Redução da libido, disfunção erétil, fadiga persistente, perda de massa muscular, aumento de gordura abdominal, humor deprimido, dificuldade de concentração. Nenhum é específico — o diagnóstico exige confirmação laboratorial.
A reposição de testosterona causa câncer de próstata?
Não causa. Mas pode estimular a progressão de um câncer já existente. Por isso o rastreamento com PSA é obrigatório antes e durante a reposição.
A reposição de testosterona causa infertilidade?
Sim — suprime a produção de espermatozoides. Homens que desejam fertilidade futura devem optar por alternativas como clomifeno ou gonadotrofinas, que estimulam a produção endógena.
Exercício físico aumenta a testosterona?
Sim, especialmente musculação e HIIT. Perda de peso também aumenta testosterona em homens obesos. Porém não substitui reposição quando há hipogonadismo confirmado laboratorialmente.