A hiperplasia prostática benigna (HPB) é o aumento não maligno da glândula prostática — e uma das condições urológicas mais prevalentes em homens adultos. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Urologia, a HPB afeta 50% dos homens acima de 60 anos e até 90% dos homens acima de 80 anos. Apesar de não ser câncer, pode comprometer significativamente a qualidade de vida.
O que é a HPB e por que ela ocorre
A próstata fica logo abaixo da bexiga, envolvendo a uretra. Com o envelhecimento, as células da zona de transição da próstata multiplicam-se progressivamente. O crescimento comprime a uretra e dificulta o esvaziamento da bexiga — este é o mecanismo central dos sintomas.
A causa exata ainda não está completamente esclarecida, mas dois fatores são essenciais: envelhecimento e presença de testículos funcionantes (produção de androgênios). Homens castrados antes da puberdade não desenvolvem HPB.
Sintomas: obstrutivos e irritativos
Os sintomas da HPB são classificados como LUTS (Lower Urinary Tract Symptoms — sintomas do trato urinário inferior):
Obstrutivos — relacionados à dificuldade de esvaziamento:
- Jato urinário fraco ou intermitente
- Esforço para iniciar a micção (hesitação)
- Gotejamento ao final da micção
- Sensação de esvaziamento incompleto
- Retenção urinária (impossibilidade de urinar — emergência)
Irritativos — relacionados ao armazenamento:
- Urgência urinária (necessidade súbita e intensa de urinar)
- Frequência urinária aumentada (mais de 8x ao dia)
- Noctúria (acordar 2 ou mais vezes à noite para urinar)
- Incontinência por urgência
A gravidade é avaliada pelo Escore IPSS (International Prostate Symptom Score), questionário de 7 perguntas. Pontuação ≥ 20 indica sintomas graves.
Diagnóstico
A avaliação inclui:
- Anamnese + IPSS: quantificar o impacto dos sintomas
- Toque retal: avaliar volume, consistência e simetria da próstata
- PSA: descartar câncer de próstata como causa dos sintomas
- Urofluxometria: mede a velocidade do jato urinário (fluxo máximo < 10 mL/s é significativo)
- Ultrassom de vias urinárias com determinação do resíduo pós-miccional: avaliar volume prostático e retenção urinária residual
- Urodinâmica: em casos selecionados, para avaliar função vesical
Diagnóstico diferencial importante
HPB, câncer de próstata e prostatite podem ter sintomas semelhantes. O PSA e o toque retal são essenciais para distinção. Nunca autodiagnostique sintomas urinários como HPB sem avaliação médica.
Opções de tratamento
Conduta expectante (watchful waiting)
Para sintomas leves (IPSS ≤ 7) sem complicações, a observação com modificação comportamental é adequada: reduzir líquidos à noite, limitar cafeína e álcool, treinar a bexiga.
Tratamento medicamentoso
| Classe | Fármaco | Efeito | Prazo |
|---|---|---|---|
| Alfa-bloqueadores | Tansulosina, Silodosina, Alfuzosina | Relaxa colo da bexiga, melhora jato | Dias |
| Inibidores 5-alfa-R | Finasterida (5mg), Dutasterida (0,5mg) | Reduz volume prostático | 6-12 meses |
| Inibidor PDE5 | Tadalafila (5mg/dia) | Melhora LUTS + disfunção erétil | Semanas |
| Combinação | Alfa-bloqueador + 5-alfa-R | Sintomas graves ou próstata grande | Contínuo |
Fonte: EAU Guidelines on Non-Neurogenic Male LUTS, 2024
Tratamento cirúrgico
Indicado quando medicamentos falham ou surgem complicações:
- RTUP (Ressecção Transuretral de Próstata): padrão-ouro para próstatas até 80 mL. Taxa de sucesso >85%.
- HoLEP (Holmium Laser Enucleation): indicado para próstatas grandes; menor sangramento, menos internação.
- REZUM (ablação a vapor d’água): procedimento ambulatorial minimamente invasivo, próstatas de 30-80 mL.
- UroLift (implante de tração): sem remoção de tecido; preserva função sexual; indicado para próstatas sem lobo médio proeminente.
- Prostatectomia aberta ou robótica: para próstatas muito grandes (>80-100 mL).
Complicações da HPB não tratada
A obstrução urinária prolongada pode causar:
- Retenção urinária aguda (emergência urológica)
- Infecções urinárias de repetição
- Cálculos vesicais
- Hidronefrose (dilatação dos rins) — pode comprometer a função renal
Dor lombar bilateral, insuficiência renal ou sepse urinária são complicações tardias que exigem atenção imediata.
Perguntas frequentes
HPB vira câncer de próstata?
Não. HPB é crescimento benigno; câncer é proliferação maligna. São condições distintas. Ter HPB não aumenta o risco de câncer de próstata.
Quais medicamentos tratam a HPB?
Os principais grupos são alfa-bloqueadores (tansulosina, silodosina), que melhoram o fluxo em dias; inibidores da 5-alfa redutase (finasterida, dutasterida), que reduzem o volume prostático em meses; e tadalafila quando há disfunção erétil associada.
Quando a HPB precisa de cirurgia?
Quando medicamentos não controlam os sintomas, há retenção urinária de repetição, infecções recorrentes, cálculos vesicais ou dilatação dos rins. A RTUP é o procedimento padrão-ouro.
A HPB causa impotência?
A HPB em si não causa disfunção erétil. Alguns medicamentos (inibidores da 5-alfa redutase) podem impactar a função sexual em parte dos pacientes. Os alfa-bloqueadores e a tadalafila costumam ser neutros ou benéficos.
HPB tem cura definitiva?
É condição crônica e progressiva. Medicamentos controlam sintomas. A cirurgia remove o tecido obstrutivo com alívio duradouro, mas a próstata restante pode continuar crescendo. A maioria dos operados tem melhora substancial por muitos anos.