A criptorquidia — ausência de um ou ambos os testículos na bolsa escrotal ao nascimento — é a anomalia congênita mais comum do aparelho genital masculino. Afeta aproximadamente 3% dos meninos nascidos a termo e até 30% dos prematuros. Em cerca de 70% dos casos, o testículo desce espontaneamente até os 3-6 meses de vida. Após os 6 meses, a descida espontânea é improvável e o tratamento está indicado.

Por que o testículo precisa ficar na bolsa

Os testículos descem do retroperitônio para a bolsa escrotal durante o desenvolvimento fetal — processo guiado principalmente por androgênios e pelo hormônio do gubernáculo (INSL3). A bolsa escrotal mantém os testículos a 2-4°C abaixo da temperatura corporal — temperatura ideal para a espermatogênese.

Quando o testículo permanece na cavidade abdominal ou no canal inguinal, a temperatura mais elevada danifica progressivamente:

  • As células germinativas (que darão origem aos espermatozoides)
  • As células de Sertoli (que sustentam a espermatogênese)

Este dano, parcialmente reversível com tratamento precoce, torna-se progressivamente permanente com o tempo.

Classificação

Criptorquidia palpável (80% dos casos): testículo presente no canal inguinal ou região escrotal alta — detectável ao exame físico por urologista experiente.

Criptorquidia não palpável (20% dos casos): testículo intra-abdominal, atrófico ou ausente (anórquia). Requer investigação por imagem ou laparoscopia diagnóstica.

Testículo retrátil: testículo que oscila entre a bolsa e a posição inguinal ao exame — frequentemente benigno, mas requer acompanhamento pois pode “ascender” com o crescimento.

Testículo ectópico: posicionado fora do trajeto normal de descida (perineal, femoral, suprapúbico). Raro.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, feito pelo pediatra ou urologista ao exame físico. O exame deve ser realizado em ambiente quente, com criança relaxada — o cremáster hiperativo pode simular criptorquidia em crianças agitadas.

O ultrassom escrotal tem sensibilidade limitada para testículos intra-abdominais e NÃO é exame suficiente para afastar criptorquidia não palpável. A laparoscopia diagnóstica é padrão-ouro para localizar testículo intra-abdominal não visível ao ultrassom.

Complicações da criptorquidia não tratada

ComplicaçãoMagnitude do risco
Tumor testicular3-8x maior que a população geral
Infertilidade (bilateral)Significativamente aumentada
Torção testicularRisco aumentado pela posição anormal
Hérnia inguinal associadaPresente em ~90% dos casos

Tratamento: orquidopexia cirúrgica

A orquidopexia — fixação cirúrgica do testículo na bolsa escrotal — é o tratamento padrão-ouro. A cirurgia deve ser realizada entre 6 e 12 meses de idade (máximo até 18 meses segundo as principais diretrizes).

Técnica cirúrgica:

  • Incisão inguinal (para testículos palpáveis) ou laparoscopia (para intra-abdominais)
  • Mobilização do testículo com seu pedículo vascular
  • Fixação na bolsa escrotal com sutura
  • Correção simultânea da hérnia inguinal associada (presente em ~90%)

Duração: 30-60 minutos, geralmente em regime ambulatorial ou com internação de 1 dia.

Recuperação: retorno às atividades normais em 1-2 semanas.

Criptorquidia no adulto

Quando o diagnóstico ocorre na vida adulta (testículo nunca foi pesquisado ou tratamento não foi realizado na infância), as opções são:

  • Orquidopexia: pode ser tentada, mas a espermatogênese raramente se recupera em testículos longamente retidos. Preserva função androgênica e reduz risco de torção.
  • Orquiectomia (remoção): considerada quando o testículo é atrófico ou intra-abdominal em homem adulto — elimina o risco aumentado de tumor.

Acompanhamento após o tratamento

Homens com histórico de criptorquidia devem realizar autoexame testicular mensal e consultar urologista periodicamente. O risco aumentado de tumor testicular persiste mesmo após orquidopexia realizada na infância — monitoramento é essencial ao longo da vida.

Perguntas frequentes

Com que idade a criptorquidia deve ser tratada? Entre 6 e 18 meses de idade — preferencialmente antes dos 12 meses. O tratamento precoce maximiza a preservação da função testicular e reduz os riscos de infertilidade e tumor.

Criptorquidia tem risco de virar câncer? Sim. Homens com histórico têm 3-8 vezes mais risco de tumor testicular mesmo após a orquidopexia. O autoexame testicular e o acompanhamento periódico são fundamentais.

Criptorquidia causa infertilidade? Pode. A temperatura mais elevada danifica as células germinativas. Com tratamento precoce antes dos 12-18 meses, a fertilidade frequentemente se preserva na forma unilateral. Bilateral não tratada tem risco significativo de infertilidade.

O tratamento hormonal funciona para criptorquidia? Taxa de sucesso limitada (~20-25%). A orquidopexia cirúrgica permanece o padrão-ouro e é recomendada pelas principais diretrizes.